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FILHA DA ÁGUAS Já fui um riacho no meio da mata Meu caminho era tortuoso e cheio de pedras...pedrinhas
e pedras enormes que tentavam a todo custo me desviar Em alguns pontos, quase me acabava...só
um fio provava que ainda estava ali...viva |
Depois virei rio...meu corpo tomou forma,
aprendeu a ocupar espaços e se fazer bela ..muito bela e feia...muito
feia.
Os empecilhos apenas me atrasavam, mas não foram fortes o suficientes
para me fazer desistir...sou impetuosa, algumas vezes, sou cachoeira, com
a energia das águas...quedas longas, barulhenta, não digo muito
a que vim...na verdade nem eu mesma sei...mas chego fazendo barulho...como
um potro selvagem necessito provar minha força, minha fúria...minha
fome...também serve para disfarçar meus medos..minha dor...essa
dor que não passa e que não permito abandonar......o que quero
provar ou para quem, não sei...
O barulho ensurdecedor da queda d'água
espanta os mais desavisados e por um momento...um instante que seja, sou forte...mais
forte do que jamais quis ser...ali represento o papel dos vencedores...e derrubo...machuco...impressiono...e
deixo minha marca nas pedras que atravessam meu caminho...e me sinto meio
Deus, pois por um breve segundo, consigo modificar a paisagem...
Movimento as pedras menores, arrasto com minha fúria a terra, quebro
galhos e levo junto com minhas angústias, as folhas que vão
sucumbindo pelo caminho....ali, me deixo levar e me transformo em RIO...ora
violento..ora plácido e misterioso...quase perigoso...indecifrável...
Há dias em que as águas são claras, cristalinas e entende-se
perfeitamente o seus significados...seus segredos. Há vida...vida pulsando
e querendo sair...me sinto então generosa e benevolente...e rego as
flores e adubo a terra e acolho os frutos que as arvores me dão como
prova de companheirismo e amizade e como parte do cenário maravilhoso
que é viver e viver, atuo como protagonista...a água é
morna, convida ao pecado, a alegria, a distração e à
criação... há vida e brilho e cores...as pedras tornam-se
companheiras de viagem..amigas para os momentos de solidão...velhas
conselheiras....conhecidas e desconhecidas, se me permito, me ensinam inclusive
a crescer, a ser um rio melhor e me lembram que mesmo na beleza, a dureza
e a aspereza estão presentes e o melhor é aprender a conviver.
Hora minhas águas são escuras..lamacentas...quase sem vida...a escuridão torna indecifrável o que ali existe...as águas mais geladas convidam à precaução...ninguém se aproxima...duvida-se até que exista vida ali...egoísta, pouco dá de si...um rio miserável e egoísta que se recusa a cumprir com sua parte na coexistência...sequer lembra de que mesmo escura, tem a sua utilidade...se há vida, ninguém sabe...ninguém viu..... tem dentro de si, bem lá no meio, um rodamoinho e os desavisados que ali resolvem entrar são tragados e não voltam mais...nesse momento não sabe perdoar e se faz odiar. Esse rio não acredita em si e não se permite VIVER.
Minha esperança é me tornar
MAR..ali tudo se renova e se transforma...a inconstância do mar...as
vezes tranqüilo e morno...as vezes bravio e perigoso aponta que o equilíbrio
está ali, nas diferenças e nas mudanças constantes...
Nada se repete...tudo se renova e cada dia faz e se desfaz ...e é fecundo...é
acolhedor e mesmo nas suas profundezas, geladas e misteriosas, convida à
reflexão e a paixão...não se preocupa em provar nada
a si mesmo nem aos outros...o Mar, simplesmente É.
Recebe com a mesma placidez a vida e a morte, porque sabe que tudo é começo...meio e fim. E que esse processo é contínuo e ininterrupto...em dias frios e cinzentos, quando o vento se faz forte, acompanha a natureza e se faz gigante e mostra toda a sua força....tudo do que é capaz...e com ondas enormes, se faz RESPEITAR.
Nos dias quentes, ensolarados, acolhe aqueles que dele se ocupam..para namorar...pra brincar..pra pescar..pra chorar ou simplesmente pra pensar ......e se faz AMAR.
Então, da próxima vez que me perguntarem o que quero ser quando crescer, vou dizer que quero ser feliz...que sou FILHA DAS ÁGUAS, que no momento sou um RIO, que o caminho é tortuoso, mas há paisagens bonitas e muita vida pela frente e antes que me esqueça, se me perguntarem o que quero ser quando crescer, direi que sou um rio, mas não um rio qualquer, sem direção, sou um rio forte, grande, sou um rio que deságua no MAR.
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Andrea Isaias é formada em Comunicação Social, trabalha há 10 anos com políticas públicas voltadas para a educação profissional e social. |