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Hera, a Grande Deusa - Por Anne Baring "O medo de não ser páreo para a maturidade feminina é a principal causa da dominação e sujeição patriarcal da mulher." |
Hera: um nome;
diversas interpretações. Para muitos, Hera é a ciumenta
e vingativa irmã esposa de Zeus, o todo-poderoso deus do Olimpo. Essa
imagem estereotipada, contudo, oculta uma outra visão; na verdade,
Hera é uma das mais grandiosas deidades femininas: muito, muito antiga,
as origens de seus cultos se perdem na noite dos tempos, recuando ao menos
até 10.000 a.C.
Suas raízes remontam à Deusa Mãe do Neolítico,
associada à vida, à morte e à regeneração,
temas que fazem dela mais uma representação perfeita da Grande
Deusa em sua típica triplicidade. Originária provavelmente de
Creta, Hera possui muitos elementos em comum com Cibele, a conhecida e adorada
deusa da Anatólia cujo culto atravessou muitos séculos.
Freqüentemente, Hera é representada na companhia de leões,
serpentes e aves aquáticas. Na Ilíada, ela é chamada
de "Rainha dos Céus," e também de "Hera do Trono
de Ouro." Outro nome que costuma ser associado a Hera é "a
deusa dos braços brancos."
De todas as Deusas gregas, Hera é a única que realmente apresenta
traços de soberania. Ela é a Deusa do Matrimônio - não
da beleza ou da atração sexual, ou ainda da maternidade, mas
da união como um princípio. Como regente do casamento, é
Hera que dá validade e importância a essa união. Hera
é também a protetora das mulheres e de todas as formas femininas
da vida.
Na Grécia, Hera era vista principalmente como a Deusa da Lua.
O mês era dividido em três fases, a saber: o crescente, a plenitude
e o minguar da lua. Por vezes, Hera era representada como a Deusa Tríplice,
nas formas de Donzela ou Virgem, A Plena ou mãe, e a Viúva,
ou a Separada. Hera, portanto, representa o próprío ciclo da
mulher em todo o seu poder e totalidade.
Ademais, Hera é o Princípio Feminino. É também
uma díade mãe-filha, pois Hera e sua filha Hebe formam um todo,
assim como Deméter e Perséfone.
Na iconografia, seus símbolos são a romã e uma flor em
forma de estrela. Tais flores eram trançadas em guirlandas e usadas
para adornar seus bustos e estátuas. Assim como Cibele, Hera trazia
nas mãos a romã.
Um lindo diadema de ouro na forma de folhas e frutos de murta foi encontrado
nas proximidades de seu templo em Crotona, mais uma associação.
Mas a mais simbólica e profunda associação de Hera com
o reino vegetal é a espiga de trigo, conhecida como "a flor de
Hera."
Um de seus epítetos, Hera "dos Olhos de Vaca," não
deixa dúvidas quanto à sua associação com o gado.
Bois e vacas eram-lhe sagrados, até porque seus chifres se assemelham
à lua crescente.
Como Rainha do Céu e da Terra, ela traz semelhanças com a deusa
egípcia Hathor. A Via Láctea era conhecida, simplesmente, como
"a Deusa."
Na mitologia grega, Hera é, sem dúvida, a mais elevada das Deusas.
Hera é mais conhecida como irmã e esposa de Zeus, mas tal associação
é muito posterior. A mitologia mais antiga apresenta elementos que
comprovam que a Hera original era independente e não possuía
marido. Posteriormente, é possível que tenha desposado Dioniso
ou Héracles, que descem ao Mundo Inferior na Lua Nova para resgatá-la,
trazendo-a na forma da Lua Crescente. O nome Héracles significa simplesmente
"Glória a Hera." Por sua associação solar,
Héracles, juntamente com Hera, representa a antiga imagem do filho-amante
da deusa, e sua união é a união do sol e da lua quando
esta se encontra em sua fase cheia.
Através de seus truques, Zeus leva Hera a adormecer, e Hermes põe
Héracles ainda bebê em seu seio. Ele a morde e, ao despertar,
Hera o empurra para longe; o leite que jorra de seu seio espalha-se nos céus,
formando a Via Láctea.
Em seus locais sagrados, Hera era cultuada por dezesseis mulheres. Após
seu 'retorno' do Mundo Inferior, elas banhavam sua estátua numa nascente
sagrada, restaurando assim sua virgindade - uma cerimônia que ocorria
anualment, antes da luz nova.
O grande ritual do casamento entre Hera e Zeus ocorria no período da
lua cheia, celebrando a união da lua e do sol. Irmão e irmã;
marido e mulher: o Hieros gamos, o 'casamento sagrado', uma tradição
mantida de uma era anterior.
Num nível mais profundo e ancestral, o casamento entre Hera e Zeus
pode ser visto como a relação entre os dois grandes arquétipos
da vida que só podem ser representados por um rei e uma rainha, ou
um Deus e uma Deusa. Seu casamento regenera o universo, numa união
criativa retradada no hieros gamos entre Hera e Zeus. Este sentimento era
provavelmente compartilhado por todos os participantes de seus ritos, os quais
celebravam seus próprios matrimônios no mesmo período
do casamento entre a Rainha da Vida e o Senhor da Vida; um casamento que unia
cosmicamente os dois grandes aspectos da vida.
Posteriormente, esses aspectos passam a ser vistos como a terra e o céu,
sendo a terra representada pela deusa e o céu pelo deus. Contudo, por
princípio, ambos estão muito além de suas representações.
Para se ter uma noção mais correta da profunidade dessa união,
é necessário conhecer a grande união abordada na mística
tradição judaica da Kabbalah.
Mitologicamente, a Terra gerou a grande árvore de maçãs
douradas das Hespérides em homenagem ao casamento entre Hera e Zeus;
contudo, acredito que essa árvore fora outrora sagrada a Hera, e possivelmente
as 'maçãs douradas' eram, na verdade, romãs. Para mais
detalhes sobre sua maravilhosa união, recomendo a leitura do 14o. livro
da Ilíada.
Templos gigantescos foram erguidos em sua honra em Samos e no sul da Itália,
além de outras localidades. Hera era cultuada em sua forma humana como
uma manifestação da lua. Seu templo principal, porém,
ficava na planície de Argos: o Heraion. Reconstruído três
vezes, o primeiro Heraion foi erguido por volta de 1000 a.C., nas fraldas
do Monte Euboia, num amplo terraço de frente para a grande planície
do Argos. Uma vez por ano, durante uma lua cheia, tinha lugar a procissão
ritual de Hera, que passava pelas cidades do Argos: Micenas, Tiryns, Argos,
Midea. Para os gregos de então, o Heraion possuía a mesma importância
que o Templo de Jerusalém possui para o povo de Israel: ele era "o"
templo, um santuário para toda a terra. O mais antigo dos templos possuía
enromes alicerces, os quais ainda podem ser vistos.
Voltando à mitologia, lemos que Zeus assume a forma de um cuco, abrigando-se
no colo de Hera durante uma tempestade. Com pena do pequeno pássaro,
ela o cubriu com sua túnica. Por conta disso, o cuco figura na ponta
de seu cetro e também é esculpido em seus templos. A lenda mostra
claramente como Zeus não passa de um intruso nos domínios matriarcais
de Hera. Através do simbolismo do cuco, Zeus passa a integrar a lenda
do culto a Hera.
Trata-se de um culto bastante místico, cujo símbolo era a romã.
Hera era cultuada como uma divindade numinosa, que se manifestava para as
pessoas. Seus seguidores não lhe dirigiam pedidos, e ela provavelmente
era cultuada como o princípio regenerador da vida, regente do Mundo
Inferior, da cúpula celeste e da terra. "Se não conseguir
demover os deuses do alto, volto-me para o Mundo Inferior", diz Juno
na Eneida. Tais palavras, porém, ecoam uma imagem mais antiga da Grande
Deusa. A romã de Hera passou para Perséfone.
Seus devotos entoavam-lhe canções, e sem dúvida eles
eram capazes de "vê-la"; afinal, falamos de uma época
em que a experiência visionária ainda era aceita.
O mais velho de todos os seus templos ficava em Olímpia, e é
anterior ao ano 1000 a.C. - muito mais antigo do que o templo de Zeus. Ali,
Hera regia os torneios, onde as mulheres corriam tão bem quanto os
homens. As corridas entre as mulheres eram divididas em três categorias
- cada uma de acordo com a idade. (seria esta uma referência à
triplicidade Donzela-Mãe-Anciã?) Os torneios ocorriam no dia
seguinte à lua cheia.
No interior do templo de Olímpia, uma estátua apresenta Hera
sentada em seu trono, a Rainha dos Céus. Ao seu lado, Zeus está
armado como um guerreiro, mostrando claramente que ele é quem fora
escolhido como o favorito da deusa, e não o contrário.Através
de Hera, as mulheres eram enaltecidas e os homens desenvolviam sua onsciência
do feminino.
Se Olímpia é seu mais velho templo, o maior era o de Samos.
O primeiro altar possuía 32 metros quadrados; anos depois, foi construído
outro muito maior, com 120 x 54 metros, decorado com um friso por toda a sua
volta, como no templo de Pergamon.
Em termos de locais sagrados, a liha de Euboea era-lhe dedicada, e templos
enormes foram-lhe erguidos na Beócia, na Sicília, e em Paestum,
na Itália, onde existia uma rede de templos que se assemelhava a uma
cidade a ela dedicada. Aqui, Hera era a Deusa do Mundo Inferior, além
de ser Rainha dos Céus. Como a lua crescente, Hera ressurgia dos mortos;
portanto, era ela quem restaurava a vida aos mortos. Seu templo em Crotona,
no sudeste da Itália, fornecia um elo de ligação entre
a planície de Argos e Paestum. Atualmente, uma solitária coluna
é tudo o que restou desse outrora grandioso templo.
Posteriormente, através de Homero, Hera passa a ser vista como a esposa
ciumenta e aborrecida de Zeus, sempre tentando recuperar seu poder perdido,
manipulando por trás de um casamento infeliz com um marido patriarcal.
Isto ecoa a antiga voz da deusa, que tenta encontrar seu papel no novo mundo
patriarcal. Reflete também a completa submissão das esposas
gregas diante de seus maridos. Ela se vinga de Zeus em suas amantes, e também
nos frutos dessas uniões - uma paróida da esposa rejeitada,
ciumente, manipuladora. Por sua parte, Zeus se mostra constantemente infiel,
provocando-a e ameaçando-a: "Nem com você, nem com tua ira
eu me importo." Dessa união, surgem dois filhos: Hefestos, o aleijado,
e Ares, deusa da guerra e da discórdia.
Na Ilíada, percebemos a necessidade do macho imaturo em difamar e satirizar
as mulheres poderosas e a antiga rodem social matriarcal; a necessidade de
negar às mulheres seu grande poder e sua profunda relação
com a vida. Em Homero, Hera então é reduzida a uma figura risível,
ciumenta e vingativa, num contexto que retrata uma cultura eicada à
guerra, ao sacrfício humano e à glória.
Zeus, por sua vez, encaixa-se no papel arquetípico do 'Don Juan', é
a imagem do macho f'lico que passa a dominar a cultura grega.
Agora, Hera não passa de uma deusa conquistada e subjugada, oriunda
de uma ordem mais antiga. Zeus surge de uma cultura invasora, que cultuava
deuses do céu e que chegou ao Mediterrâneo vinda do norte, impondo-se
sobre as culturas anteriores que ali existiam: a invasão dórica.
Num nível mais profundo, os problemas de relacionamento entre Hera
e Zeus simbolizam a dificuldade em se unir as tradições Lunar
e Solar na mente humana, pois devemos descobrir como elas podem coexistir
e frutificar. Trata-se de dois tipos diferentes de consciência: a Solar:
heróica, com sua abordagem linear, lutando pela supremacia e pela perfeição;
e a Lunar: cíclica, em busca da harmonia do relacionamento, da conexão,
da integração ou da síntese, da totalidade.
Por aí, podemos perceber o quanto temos a
aprender com Hera.
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Anne Baring é co-autora de "The Myth of the Goddess" dentre outras obras. www.annebaring.com |
© 2001 - Artigo publicado originalmente no site da Hera Mágica. É proibida toda e qualquer reprodução sem prévia autorização. Lei de direitos autorais.