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O PARIR COMO A ORIGEM DO MUNDO Vivendo em um mundo patriarcal, onde predominam os valores masculinos baseados em uma divindade paterna, talvez não seja fácil para nós imaginarmos que, no alvorecer da epopéia humana, as fêmeas da espécie pudessem ter tido um papel decisivo na criação da ordem social e cultural. Contudo, os primeiros mitos da criação do mundo se espelham na percepção de que a vida espontaneamente emerge do útero da fêmea, o parir sendo o padrão subjacente aos mitos cosmogônicos mais antigos. Para a cosmologia científica, o espetáculo do universo é um movimento incessante de nascimento, desenvolvimento e destruição de formas, cada forma sendo uma descontinuidade qualitativa sobre um certo fundo contínuo, um Campo Unificado de Energia, que responde à sua própria presença, produzindo uma estrutura diversificada, que governa o universo. Esta força numinosa, que antecede todas as manifestações e as suporta, cria a criação por um processo de auto-interação. Na linguagem científica, do nada anterior ao Big Bang algo se dividiu ou explodiu e, num longo processo intimamente associado com gestação e parto, dá origem ao nosso universo, constituído de camadas de criação, que vão do superficial ao profundo, do microscópico ao macroscópico, do complexo ao fundamentalmente simples, do diversificado ao unificado. São mundos dentro de mundos, dentro de mundos, cada um com qualidades diferentes, não apenas menores, mas possuindo uma lógica própria. Quanto menor a camada, mais profunda, mais desperta, mais inteligente, mais dinâmica, mais viva ela se torna, mais subjetiva em escalas fundamentais. Afirmam os cientistas que o universo estava exprimido em um único ponto com tamanho zero, com uma temperatura infinitamente quente. Depois da grande explosão, uma radiação cósmica de fundo se distribuiu uniforme e suavemente em microondas, a sopa primordial, formada principalmente de matéria escura (partículas elementares que constituem 90% da massa do universo), misturada com alguma matéria comum, basicamente gases de hidrogênio. Esta totalidade primordial que pare, que produz vida nova e cuja presença é fundamental para nutrir esta mesma vida, foi chamada por Mircea Eliade de uma totalidade neutra e criadora. Quando ela se multiplica, seja por meio de uma divisão ou de um desmembramento, faz emergir todos os demais seres. A idéia da unidade primordial que se abre, divide ou explode, por um movimento intrínseco ou desígnio próprio, pode ser encontrado em quase todas as mitologias, cada qual utilizando sua própria linguagem. |
Os chineses deram a este Campo Unificado de Energia o nome de Dao, que designa a totalidade de todas as coisas, bem como a matéria básica da qual todas as coisas são feitas. Existindo antes do céu e da terra, não tem forma nem intenção. De natureza vibratória, esta imensa teia de mudança incessante não muda ela mesma. Sem uma forma definida, é a matriz do tempo, que inclui o passado, o presente e o futuro, abarcando ao mesmo tempo o ser e o não ser. Refere-se a um reino primordial, o útero no qual as sementes de todos os seres estão contidas. Esta é a razão pela qual Laotsé afirma: Dela, como de uma mãe, todas as coisas vivas vieram. Eu não sei como chamá-la. Assim, a chamarei de Dao.
Os gregos denominaram esta unidade primordial de Caos, palavra que se origina do grego khaos, significando fender-se, dividir-se em dois, entreabrir-se, referindo-se simultaneamente ao estado primevo da existência e à força que causa a sua separação. Ao fender-se sob a ação do próprio impulso, a unidade inicial produz o vazio escancarado, semelhante ao que surge quando a boca se abre num bocejo. Quando esta força se fende e se divide em dois, surge um imenso espaço vazio do qual emerge o cosmos organizado.
Diz o mito olímpico que, no começo de todas as coisas, a Mãe Terra (Gaia) emergiu do Caos e em seguida pariu seu filho Urano. O mito pelasgo nos fala de Eurínome, a Deusa de Todas as Coisas, que surgiu nua do Caos e, não encontrando lugar para apoiar seus pés, separou o mar do céu e dançou solitária nas ondas. Ela dançou em direção ao sul e, sentindo o vento que se formou às suas costas, esfregou-o entre as mãos fazendo surgir a serpente Ófion.
Esta Deusa Mãe Primordial provavelmente não era experimentada como um ser personificado, mas como uma força que atuava através de tudo que é vivo. Assim é que ela pode ser a terra ou o céu, as águas celestes ou terrestres, a montanha ou a caverna, os rios ou o oceano, as estrelas, o sol, a lua. Ou talvez ela seja tudo isto reunido.
Os povos agrários da Suméria nos deixaram o mais antigo nome conhecido de uma divindade criadora do universo. Nammu, a mãe que deu nascimento ao céu e à terra, é descrita em alguns poucos fragmentos extremamente antigos, sendo que o ideograma usada para seu nome significa tanto mãe quanto oceano. Esta mãe-oceano, diretamente associada com as águas uterinas, é o grande útero abissal, o profundo maternal que recebe o nome de Nun no Egito, Tiamat na Babilônia e Temis na Grécia.
Narra um mito egípcio que, em algum ponto entre a imensidão e a eternidade, dormiam escuras e ocultas as águas da não-criação. Em seu movimento íntimo, forças diferenciam-se nessa substância cósmica original e se estruturam em quatro pares de opostos complementares, constituídos cada um de um pólo feminino serpente e um pólo masculino sapo.
Estas entidades interagiram de maneira explosiva e romperam todas as tensões equilibradas que restringiam seus poderes elementares. A partir da energia liberada dentro da matéria primitiva revolta ergueu-se o primeiro montículo chamado de Ilha de Fogo, pois foi de seu horizonte que Ra se elevou e o universo observou o brilho mágico do primeiro nascer do Sol.1
Mas vem da Mesopotâmia o mito da criação que relata como o universo deixou de emergir do útero da deusa primordial, para ser feito do desmembramento da grande serpente-dragão Tiamat. Isto faz do épico babilônico Enuma Elish a origem de todos os mitos de cunho heróico, em que o herói combate e vence as forças originais, entendidas como o caos primordial, para estabelecer uma ordem, a ordem patriarcal.
São Paulo, fevereiro de 2008
Referências Bibliográficas:
__Mircea Eliade, Myhen, Träume und Mysterien [Mitos, Sonhos e Mistérios]
__Laotsé, Tao Te Ching
__Monika von Koss, Maria Helena Tedesco e Isolde Marx, As Deusas Egípcias e o Século XXI. Uma visão atual do sagrado feminino no Egito antigo
__Anne Baring e Jules Cashford, The Myth of the Goddess: Evolution of an Image
Hesíodo, Teogonia
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A psicoterapeuta Monika Von Koss dedica-se à questão do Feminino e da Deusa, desde 1990, temática de seus três livros publicados, e coordena o Espaço Caldeirão em São Paulo |